Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas.
Mário Quintana
Mário Quintana é o poeta mais bem humorado que conheço! Ele traz nos seus versos uma doçura e uma simplicidade tamanhas que contrastam, de forma irreverente e discreta, com sua sofisticada capacidade de nos fazer refletir sobre os assuntos mais profundos da condição humana. É poeta pra toda idade, pra toda gente.
O livro que apresento hoje, entretanto, como imperdível para a biblioteca de qualquer criança, a partir de um ano de idade, é O PRÍNCIPE SEM SONHOS, de Márcio Vassallo, com ilustrações inesquecíveis de Mariana Massarani, da editora Brinque-Book. Por que falei tanto em Mário Quintana? Porque Márcio Vassallo não esconde de ninguém sua admiração e inspiração pelo poeta e faz questão de mostrar isso em livros que ele mesmo organiza com poesias de Quintana. Vassallo herdou de seu mestre o talento para contar/escrever história e poesia para crianças de todos os tamanhos. Não, na verdade, só para aqueles que são capazes de entender com o coração e com olhos de “viajante”, como ele mesmo diria. O PRÍNCIPE SEM SONHOS nos conta a história de Thiago, um menino que tinha tudo “e, se tinha tudo, como poderia sonhar?” Bastava aquele menino-príncipe desejar e lá estavam os objetos desejados bem a sua frente. Ao contrário do que podemos supor, isso fazia de Thiago um menino infeliz. Queria sentir o gosto da conquista, das esperas, dos suspenses. Mas, os pais, preocupados com a tristeza do filho, exageravam ainda mais nos esforços para a realização dos seus sonhos.
Thiago decide, portanto, procurar seu avô-bruxo-aposentado que vivia muito longe daquele lugar. É ali, naquele sofá macio, numa varanda onde se pode ver um céu cheio de nuvens, que ele aprende a sonhar com seu avô: “seus sonhos são como as estrelas, menino. Eles estão aí, mesmo que você não consiga ver nenhum. Mesmo que as nuvens os escondam. Eles estão aí. Preste atenção: você já tem tudo o que quer. Mas ainda não é tudo o que pode ser.”
Fiquei pensando, depois de ler as palavras de Mário Quintana, na epígrafe deste texto, e imaginei que talvez ele seja esse avô-bruxo-aposentado de um menino-príncipe chamado Márcio Vassallo, que nós leitores desejamos que não pare de sonhar e escrever jamais!
Adriana Guedes
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