segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um motivo pra sonhar

                                                          

Se as coisas são inatingíveis... ora!



Não é motivo para não querê-las...



Que tristes os caminhos, se não fora



A presença distante das estrelas.


Mário Quintana
Mário Quintana é o poeta mais bem humorado que conheço! Ele traz nos seus versos uma doçura e uma simplicidade tamanhas que contrastam, de forma irreverente e discreta, com sua sofisticada capacidade de nos fazer refletir sobre os assuntos mais profundos da condição humana. É poeta pra toda idade, pra toda gente.
O livro que apresento hoje, entretanto, como imperdível para a biblioteca de qualquer criança, a partir de um ano de idade, é O PRÍNCIPE SEM SONHOS, de Márcio Vassallo, com ilustrações inesquecíveis de Mariana Massarani, da editora Brinque-Book. Por que falei tanto em Mário Quintana? Porque Márcio Vassallo não esconde de ninguém sua admiração e inspiração pelo poeta e faz questão de mostrar isso em livros que ele mesmo organiza com poesias de Quintana. Vassallo herdou de seu mestre o talento para contar/escrever história e poesia para crianças de todos os tamanhos. Não, na verdade, só para aqueles que são capazes de entender com o coração e com olhos de “viajante”, como ele mesmo diria. O PRÍNCIPE SEM SONHOS nos conta a história de Thiago, um menino que tinha tudo “e, se tinha tudo, como poderia sonhar?” Bastava aquele menino-príncipe desejar e lá estavam os objetos desejados bem a sua frente. Ao contrário do que podemos supor, isso fazia de Thiago um menino infeliz. Queria sentir o gosto da conquista, das esperas, dos suspenses. Mas, os pais, preocupados com a tristeza do filho, exageravam ainda mais nos esforços para a realização dos seus sonhos.
Thiago decide, portanto, procurar seu avô-bruxo-aposentado que vivia muito longe daquele lugar. É ali, naquele sofá macio, numa varanda onde se pode ver um céu cheio de nuvens, que ele aprende a sonhar com seu avô: “seus sonhos são como as estrelas, menino. Eles estão aí, mesmo que você não consiga ver nenhum. Mesmo que as nuvens os escondam. Eles estão aí. Preste atenção: você já tem tudo o que quer. Mas ainda não é tudo o que pode ser.”
Fiquei pensando, depois de ler as palavras de Mário Quintana, na epígrafe deste texto, e imaginei que talvez ele seja esse avô-bruxo-aposentado de um menino-príncipe chamado Márcio Vassallo, que nós leitores desejamos que não pare de sonhar e escrever jamais!
Adriana Guedes

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Histórias para gente só

Algumas histórias parecem ter nascido para serem contadas, carregando em seus enredos o desejo da oralidade, do encanto da voz do contador; desejo das exclamações e interrogações que vão brotar no coração e no olhar de quem as ouve.  23 histórias de um viajante, que Marina Colasanti publicou em 2005 pela Global Editora, nos convoca, não para uma escuta atenta em torno da fogueira e rodeados de gente, mas, ao contrário, nos invade com o desejo de silêncio para uma leitura que será mais profunda quanto mais solitários estivermos.            
O brilhante percurso literário de Marina Colasanti, principalmente para jovens e crianças, consagra-se neste livro, até mesmo nas suas ilustrações sutis e delicadas, fazendo-nos relembrar da Marina pintora.
Um príncipe, quando chegou à idade em que poderia mandar, assustado com as guerras, o sangue e a morte das pessoas queridas, decide construir muralhas “altas como despenhadeiros, escuras como rochas” para proteger-se de seu próprio medo. E assim vive grande parte de seus anos. Um dia, porém, diante da muralha, um cavaleiro tenta encontrar um ponto de entrada para aquelas terras, porque desejava continuar seu caminho. Seduzido pela coragem e liberdade do viajante, o príncipe permite sua entrada, mas o passante teria que contar histórias e notícias do mundo para aquele jovem monarca.  Assim, como uma sherazade masculina, as histórias do viajante vão tecendo no imaginário do príncipe, e também dos leitores, uma narrativa cheia de impossíveis, carregada de significados que precisam ser sentidos, assimilados com uma leitura afetiva sobre o mundo, pouco lógica, que trata do que não se pode entender com linearidade. Cria-se em nós, leitores, uma vontade de decifração de palavras como chave, salamandra, porta, muralha, fogo, ninho, que ao longo das histórias vão sugerindo, similar ao que acontece com o príncipe, a descoberta de um novo caminho.
É encantador perceber, nas 23 histórias, as marcas dos contos de fadas, guardadas no nosso inconsciente e reveladoras de mistérios e conflitos que vivenciamos secretamente, em qualquer idade. Marina Colasanti não atualiza os contos de fadas, mas inventa novos e surpreendentes enredos que nos fazem, mais uma vez, pensar sobre o sentido da vida. Vale aqui uma atenção especial à 14ª história, “De muito procurar”, pela dimensão que o narrador vai apresentando sobre as diferenças entre o masculino e o feminino na forma de ver o amor, que, antes mesmo de nascermos, já pressentimos que será o que nos move” nesse mundão de Deus”, como diria nosso querido Guimarães Rosa.
Adriana Guedes